O galo ainda canta? a negação de Pedro hoje.


Quadro: 'A Negação de Pedro' de Carl Heinrich Bloch

Neste ano de 2019 (Ano C), refletimos a Paixão de Jesus na ótica de São Lucas, o evangelista da misericórdia. Uma razão muito especial para voltarmos o nosso olhar para algo que, às vezes, possa passar despercebido, e que tem grande relevância em nossas vidas de fé: a negação de Pedro para com a pessoa de Jesus.


O apóstolo Pedro é uma figura de muita consideração para São Lucas, motivo pelo qual o evangelista coloca na boca de Jesus que somente por ele (Pedro) o Senhor rezaria (Lc 22,32). Isso dentro um processo de conversão que passou pelo discipulado, pela queda (negação) e que tem seu ápice na conversão (pelo olhar de Jesus no caminho do Calvário). Assim, no fim deste caminho Pedro é capaz de confirmar os irmãos na fé (Lc 22,32c).


O caminho de conversão de Pedro para se tornar um verdadeiro seguidor, discípulo e apóstolo de Cristo passou pela negação de Jesus. O Senhor o advertiu que ‘‘antes que o galo cantasse por três vezes ele o negaria’’ (Lc 22,33), de modo que Pedro experimentasse a morte, como distanciamento de Deus. A negação do apóstolo não é uma mera repetição vocabular de ‘nãos’, mas uma construção linguística para nos levar à uma reflexão mais profunda da realidade pecadora de negação de Cristo, a qual podemos nos colocar no cotidiano de nossas vidas.


Pedro acompanhou toda dramática prisão de Jesus (Lc 22, 54c), mesmo que de longe. Ele estava seguindo o Senhor, como todos nós, cristãos da era moderna, fazemos em nossas igrejas, mas será que o negamos, como Pedro o fez?


O primeiro ‘não’ – Lc 22, 55-57

Depois que Jesus foi preso e levado à casa do Sumo Sacerdote ocorrerão as negações de Pedro. Quando, se colocando perto ao fogo, no pátio, foi interpelado por uma criada se estava na companhia de Jesus, Pedro então negou, dizendo que não o conhecia.


Este primeiro ‘não’ demonstra a negação superficial de Pedro para com a pessoa de Jesus; está ligada ao testemunho visível de estar na mesma presença de Cristo. A conjunção grega syn, que significa com. Negou na dimensão exterior de existência dele com o Senhor.

O segundo ‘não’ – Lc 22, 58

Logo após a interrogação da criada, veio um homem e interpelou Pedro, dizendo que ele era também um daqueles que seguiam Jesus. O apóstolo, porém, replicou: não sou.


Este segundo ‘não’ demonstra a negação interior de Pedro para com a pessoa de Jesus; está ligada à dimensão interior da fé, da existência do crente. A frase grega que está na boca do interlocutor de Pedro é ek autón ei que significa ‘‘um outro (Pedro) é com ele (Jesus) – Pedro é com Jesus. Pedro afirmou que não era seguidor de Cristo; ele não existia (ser) como seguidor do Nazareno. Negou novamente, agora na dimensão interior de existência dele com o Senhor.


O terceiro ‘não’ – Lc 22, 59-60

O último não é o pior de todos, pois demonstra a negação total da pessoa de Pedro para com a configuração ao Cristo. É mais do que negar a presença corporal (primeiro não) ou a presença interior de fé (segundo não) para com Cristo: é repudiar o Cristo na sua si mesmidade e missão; o Cristo que está no discípulo, como seguidor.


Depois de uma hora, houve outra interpelação a Pedro dele ser seguidor de Jesus dizendo que ele era ‘galileu’. Baseando-se no fato de ser galileu, o inquisidor o associou a Jesus, mas tal fato não é meramente linguístico (os galileus terem uma forma diferenciada de falar, um dialeto – de exemplo o uai mineiro), mas ao fato cultural da época sobre o discipulado: aquele que segue alguém como mestre, pensa como esse mestre, fala como esse mestre, age como esse mestre, é como esse mestre.


Ser galileu (Galilaios estín) é ser como Jesus, carregar o rosto de Jesus, suas ações e palavras; é a configuração do nosso ser ao ser de Cristo. É a configuração do homem regenerado pela graça original que só se alcança através do ser em Cristo. Esse era o ‘ser galileu’ de Pedro, que tão veementemente negou aos homens. O ser outro Cristo; negou o Cristo nele; negou na dimensão da existência do Cristo nele, como apóstolo.


Em síntese: o caminho de Pedro para negar Jesus é crescente, ou seja, do menos grave para o mais grave: 1º) Nego externamente; 2º) Nego internamente; 3º) Nego existencialmente o Cristo (tanto em mim, como no outro).


Negamos hoje?


A pergunta desta reflexão é: ainda negamos Jesus? Qual o grau de negação que nossa cultura tem para com Jesus? Nega-se o Cristo externamente com ações, interiormente com pensamentos anticristãos, ou existencialmente com a maneira que conduzimos nossas vidas (nos distanciando da pessoa de Cristo que mora em nós)?




Seminarista Pablo Henrique - 3º ano do curso de Teologia

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